Venho à praça ler e,
caso seja o caso, escrever.
Ainda não é um dia frio, como os que virão em um mês,
mas o sol não mais que se esquiva,
brilha à espreita, entre as nuvens,
e seu calor não chega à tez.
Não deixa de ser este, no entanto,
um dia agradável, e é bom estar fora de casa,
aproveitando prazeres de papel.
À minha frente, senta-se uma mulher,
com seu próprio papel e caneta.
O azul dos seus tênis é o mesmo da manta atravessada sobre os braços,
do anel no seu dedo anelar,
e dos seus olhos.
Assisti ao seu chegar,
ao seu sentar na grama,
ao seu abrir um caderno novo, rasgando o plástico,
e começar a escrever.
Nos outros dias, em que não venho à praça, trabalho em um café.
E reparo sempre quando alguém se senta à mesa
com caderno e caneta.
Pergunto-me o que escrevem
– eles e, agora, essa mulher –:
prosa;
poesia;
confissão;
ou enigma.
Desejo poder contar a eles que compartilhamos,
nós dois, um segredo.
Que eu e você, nós dois conhecemos
o mistério da escrita,
o mundo da palavra,
o que há de sensível no documento.
Quero, na surdina, sussurrar: “eu te entendo!”
Disfarçado de oferenda, isso
é, no fundo,
o desejo de ser reconhecido.
De contornos difusos e borrados, os meus,
que entram em foco sob o olhar alheio, distinto,
e o prazer em ser,
ser o prazer em ser visto.
Tenho certo carinho por essa mulher,
aqui, que agora lê um livro,
sentada a apenas alguns passos de mim.
Subitamente, pergunto-me se não saberia, ela também,
aquilo que tanto eu sei:
afinal, não estou eu também em frente a ela?
Eu também na grama?
Eu também armada de papel e caneta?
Curioso,
que tenha me considerado tão à parte do mundo
que me implicaria invisível,
vendo e não vista,
escrevendo escondida.
Livrei-me, sem necessidade, de ser textura no relevo do mundo.
Conformo-me em não saber
– quiçá ela saiba: compartilhamos um segredo;
somos feitas da mesma matéria;
dançamos ao som da mesma música na polifonia disforme
da existência,
da vida.
Mas quando ela levanta-se para ir embora, pergunto-lhe as horas,
e antes de partir, sorri e diz: “Aproveite a escrita”.
E assim sei:
ela também sabe; sabia